Ela se deitou, ele estava dormindo. Eram estranhos
conhecidos. Sabiam, não serviam como um casal, mas também não serviam sozinhos
e, então, decidiram que não servir à dois seria melhor do que a um.
Ela se encolheu e rolou duas ou três vezes pela cama,
a luz do abajur a incomodava, mas ele detestava escuridão. Ela riu, ela era a
escuridão.
Levantou-se, saiu pela varanda e olhou o céu e,
olhando o céu, pensou:
“Se eu esticar meus braços bem para o alto,
aproximar minhas mãos e piscar várias vezes, eu poderei fingir que o céu está
em minhas mãos. Ele será uma grande bola de massa a qual eu posso moldar.
O mesmo com esse homem... Se eu me aproximar,
estender minhas mãos sobre seu rosto e piscar várias vezes, ele será uma grande
bola de massa também. E eu poderei moldá-lo.
Eu serei seu Michelangelo.
Ele será mármore ou granito.
Eu sempre serei seu Michelangelo, mas ele nunca será
meu Davi”.
Respirou fundou algumas vezes, engoliu lágrimas
porque simplesmente não servia para chorar também. Voltou à cama e se enrolou
no cobertor. Sua peça mal feita dormia, ela não tinha controle algum sobre ele.
Ou teria?
O controle estava em sua própria mente que a
manipulava o suficiente para lhe fazer acreditar que manipularia a alguém.
Não, ela não estenderia os braços. Não, ela não
moldaria o céu. Não, ele não seria seu Davi. Mas ela, ah ela, ela seria pouco
menos que uma escultora de si.
Sttela Vasco
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