"Quem sabe, um dia, eu não deixe de ser assim tão inconstante e instável? Até lá, sou uma nova atração a cada dia"

(Sttela Vasco)





domingo, 27 de novembro de 2011

Um cigarro apagado em uma noite tipicamente urbana, saltos carregados, maquiagem borrada. Subiu a pé toda a Brigadeiro Luís Antônio. O frio da madrugada só não era pior do que o frio da manhã que estava por vir. Alguns vagabundos bêbados gritavam ao longe, ela se encolhia um pouco por frio e um pouco por medo. Sua companhia era sua sombra, falava sozinha só para poder falar. Preferia admitir a loucura à solidão. Viu distante a placa apagada indicando que estava próxima ao metrô, agradeceu em seu interior por sobreviver até ali. As pessoas não imaginam como ruas noturnas podem ser assustadoras, ainda mais para uma garota mal vivida e inexperiente. A bolsa vermelha pendia em seu ombro, dentro dela uma identidade que não era sua, algum dinheiro, o batom que roubara da mãe e os cigarros. Seus pés doíam, seus dentes batiam e todo seu corpo estava prestes a tremer em espasmos incontroláveis. As escadas cinzentas reuniam todo o tipo de lixo em suas arestas, ela pisava com cuidado. O efeito do álcool não havia cessado completamente, ela ainda estava atordoada. Observou a velha catraca engolir seu último bilhete e pôde ouvir o som de mais um trem chegando. Correu e tropeçou pelo caminho, sentia os joelhos ardendo, mas não desistiu de entrar no último vagão. As portas estavam para fechar e, em meio ao seu próprio caos, os belos sapatos caíram de seus dedos. Pensou em voltar, mas acovardou-se e sentou-se em um dos bancos de tinta descascada. Um solavanco e deixava estação para trás. Observava o par de calçados que jaziam junto à plataforma enquanto os pilares cinzentos davam lugar às paredes escuras de um túnel qualquer. Com sorte chegaria antes de o total amanhecer, com sorte seria a gata borralheira de um conto atualizado e um rapaz bonito devolver-lhe-ia os sapatinhos abandonados. No entanto, se tivesse sorte não precisaria que alguém os devolvesse. Deixou a cabeça tombar e encostar-se ao vidro embaçado da janela, não sabia o que fazer, era uma garotinha vestida de mulher. O Sol nascia, mas ela não conseguia achar mais graça naquilo, o céu camaleão, uma vez tão peculiar, já não a emocionava. Algumas pessoas compartilhavam da sua solidão ou, então, curtiam o sabor do próprio isolamento. Uma mulher de pernas inchadas e cobertas por uma meia fina arrastava uma sacola de feira, uma criança resmungava sonolenta no colo da mãe, um homem dormia com a boca aberta e outro segurava um jornal, um garoto sorria de olhos fechados com fones presos aos ouvidos e ela... Ela estava ali, ela era um ser vivo e observador, procurava entender quem eram aqueles indivíduos e por que dividiam aquele momento com ela. Ela ainda respirava, mas sua face estava imóvel. Se ainda houvesse sensibilidade em si estaria chorando, porém, há muito recusara entregar-se à tamanha fraqueza. Pode ouvir os freios gritarem pouco antes de a porta abrir e ela saltar daquela pequena fatia de vida desprezada. Caminhou até chegar a alguma rua conhecida e, depois de chegar, continuou caminhado. Perambulou por todos os cantos até chegar a sua casa. Estava exausta, faminta, sonolenta. Jogou a bolsa no sofá remendado e caminhou em direção ao banheiro. Não se importou em molhar o vestido, deixou a água cair por toda a extensão de seu corpo e, então, fechou o chuveiro. A peça de roupa ensopada permanecia sobre o box, enrolou-se em uma toalha felpuda e deixou-se cair sobre a cama. Talvez mais tarde organizasse seu quarto, seus planos e sua vida, mas, agora, naquele momento exato iria adormecer ouvindo a voz estridente de alguns vizinhos e seus pandeiros desafinados. Era o fim da noite para ela e o começo do dia para todos os outros. (Sttela)
O relógio marca 07h30min, uma luz branca ultrapassa as cortinas, os corpos ganham vozes e as ruas ganham vida. Seus olhos, meus olhos e todos os olhos abrem-se lentamente. Ela estica os braços ao longe. Toca o próprio rosto e confere se tudo o que sonhou não se transpôs para a realidade. É uma garotinha. Os cabelos longos, negros, caem-lhe na face, os pezinhos miúdos encontram os chinelinhos largados ao chão. Em sua mente novata não há muito que fazer. Ouve cantos ao longe, fecha os olhos e imagina estar em outro lugar. É miúda, silenciosa, inofensiva. Não passa de uma rapariga curiosa. Tudo ao seu redor volta a ganhar cores. O silêncio do sono e dos quartos inabitados abandonam o ambiente, mais uma vez ela ficará só. Uma senhora a vê e sorri chamando-a com os braços. Ela nada diz, caminha ao encontro da doce figura que lhe acena. É preciso ser bem educada, disse-lhe a mãe uma vez. Não há nada de novo, pela janela ela percebe as margaridas nascendo no canteiro, segura seu impulso de correr até elas e arrancar-lhes uma a uma apenas para cumprir seu capricho e formar um buquê. Lá fora, um par de olhos de vidro a acompanha. Sorriso franco, lábios vermelhos, cabelos perfeitos caindo em caracóis pelo corpinho de pano. Ela agarra as mãos frias de porcelana de sua velha companheira. Mais dia menos dia irá abandoná-la, irá crescer. Perceberá que o grande pedaço de terra é, na verdade, um tabuleiro abandonado onde brota o que quiser e que a simpática amiga que tanto lhe achega são apenas cacos pintados e enfeitados ao gosto de alguém. Mas isso não lhe aborrece ainda. Sua mente infantil preocupa-se apenas em não sujar muito o vestido ou não se esquecer de alimentar alguns cachorros fictícios. Tem um encontro com amigos imaginários e, enquanto os aguarda, pode sentir o cheiro de pão fresco invadir o ar, ainda não descobriu a singularidade do café. Respira fundo, pisca algumas vezes e joga os braços para o ar. Começa a rodar impaciente, roda e vai trançando pequenos círculos na poeira. Os sapatos pretos e envernizados logo perdem o brilho. Ela para, sente-se zonza e deixa-se cair ao chão. Para ela, a vida não vai muito além dali. Nada pode ser melhor do que estar ali. Alguém grita seu nome com força. Ela levanta, sacode cada pedaço da roupa engomada e dá pequenos tapas nas partes onde as manchas marrom permanecem. Os dias seguintes serão iguais, sua vida será igual até que ela abandone os sapatinhos. Até que ela simpatize-se com o líquido preto de cheiro forte que enche o bule todos os dias, mas que, por enquanto, ela não vê. Até que os espaços lhe pareçam menores e ela compreenda a ausência e entenda porque a suave senhora ainda está presente com seu avental amarelado, seus chinelos de pano e seu cabelo em coque. Até que ela perca a face pueril e ganhe elogios de poucos homens que por ali passarem. Ela ainda não compreende, nem imagina. Com algumas temporadas a mais talvez comece a notar, porém, por enquanto, tudo o que se faz importante está ali naquele pequeno quintal gigante. (Sttela)