"Quem sabe, um dia, eu não deixe de ser assim tão inconstante e instável? Até lá, sou uma nova atração a cada dia"

(Sttela Vasco)





terça-feira, 28 de agosto de 2012

Batom borrado. No travesseiro, o rímel marcado. Já foi muito melhor, já sonhou bem mais. No momento, é um eco de si mesma. Uma sombra de quem foi ou de quem pensou que seria. Não esperava um futuro tão certo, tanta fumaça no caminho e tanta rudeza. Não acreditava que a própria vida fugiria ao seu controle. Já é de manhã, larga de manha, é mais um dia para sobreviver. Mais um dia para fingir que ainda tem apenas metade de sua idade e que o mundo gira a seus pés. Pose bem feita, postura ideal. Joga um pires ou dois contra as paredes as quais ninguém tem acesso, esconde lágrimas no lenço de dentro do casaco. É mais um dia e ela sabe que ninguém vai querer comprar seus problemas, Oh, sim, ela os venderia. Uma barganha ou duas e teriam um novo dono. Ela voltaria a ser a menina de coroa na cabeça e pés no chão de uma cozinha suja, ela reanimaria sua alma inerte e voltaria a ser. Ser menina, ser poeta, ser princesa. Talvez ela seja, talvez ela já foi. Mais um batom, mais um rímel. Um ímpar num universo de pares. Ninguém precisa de uma estrela para ver a galáxia. Ela sabe, você sabe, eu sei. Nunca sua, minha. Nunca luxúria. Nunca desejo. Apenas mais uma marca em um colarinho que há muito desbotou. Mulher. Menina. Mulher. Menina. Mulher e menina.

domingo, 8 de julho de 2012

O que sobrou.

Abraços e despedidas. Uns traços tristonhos em uma multidão de anônimos. Eu, mais uma. Você, nada além de um a mais. A imagem que reflete em todos os cantos não é minha. Perde-se de vista as visões tão familiares. Olhos secos, ausência de dor, ausência de tudo. Sangue correndo por correr, vida parcial. Seca, oca, vazia. Nada mais vem , nada mais chegou. Abandonada por suas próprias palavras, não consegue mais lhes dar vida. Perdeu seus encantos quando se chocou com a realidade. Foi se destruindo, está quebrada. Remendos fracos não seguram mais seus pedaços. Caminha sobre cacos, perde um pouco de cor a cada passo. Cansada , caída, calada. Sofrer em silêncios, silenciar rumores. Sussurros de vozes roucas. Loucuras de quem vive na lucidez de um mundo irreal. (Sttela Vasco)

domingo, 15 de abril de 2012

Não consigo ser literal, não posso, não sei. Aos meus olhos, a vida carrega uma lente subjetiva. Eu nunca enxergo o concreto, tudo o que eu tenho é uma parcela da realidade mistura às minhas impressões perdidas. Se eu pudesse nunca mais dormir, se eu pudesse passar pela minha existência imersa nesse devaneio, creio eu que seria uma pessoa mais feliz. Agora eu entendo os motivos que me levam a ter tanto medo de abrir a minha vida para os sentimentos e, em consequência, para as pessoas. De modo óbvio, ao fazer isso, eu passo a sentir, e sentir é a parte mais difícil do conglomerado "viver". Sttela Vasco

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Há quem sonha. Quem luta por seus sonhos, entrega o sangue e dá a alma por eles.
Há quem deseja sonhar. Que passa noites em claro pensando em como poderia ser se...
E há pessoas como eu.
Pessoas que têm um sonho que lhes consome por inteiro. Eles sabem que aquela é a sua linha existencial, sabem que aquele foi o seu sopro de vida antes mesmo de viverem. Mas eles têm medo.
Têm medo de abandonar o que já existe porque acreditam que perderão o que conquistaram, e perderão para sempre.
Têm medo do fracasso e de admití-lo.
Têm medo da mudança.
Mas, ao mesmo tempo, eles, essas pessoas tão idênticas à mim, sentem a dor por perder aquilo que os motiva.
Sentem a dor por se afastar daquilo que daria um motivo a mais para sorrir e agradecer.
Sentem por não ter o brilho interno refletido em seus olhos. Ah! Como eles invejam quem tem.
Há pessoas como eu.
Indecisas, inseguras e insensatas.
Indecisas por não conseguir largar tudo e se entregar ao que ama.
Inseguras por não conseguir ter fé o suficiente.
Insensatas por, apesar de tudo, ainda sonhar e crer que, de alguma forma, um dia, irão conseguir abandonar o mundo para trás e conquistar o que almejaram por toda a vida.
No momento sou uma pessoa inerte, estática.
Sonho vez ou outra. Deixo levar-me através de visões de um futuro pleno, vou indo, quase acreditando que estou perto de algo palpável. Então caio e acordo para a realidade.
A realidade que eu escolhi, a realidade da qual eu não consigo me desvincular e que, por essa razão, está me matando aos poucos.
Sim, matando. Porque, conforme matamos um sonho, matamos a nós mesmos.
Cada vez que o sufocamos, estamos sufocando nossa própria alma.
Eu estou perto, muito perto, de perder completamente o ar.
Quem sabe dessa forma, de uma maneira contraditória e anormal, eu não consiga o fôlego necessário para lutar?
Por enquanto, fico calada. Observando ao longe o que, por minha própria culpa, não posso ter.
Sttela Vasco

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Adágio

Uma avenida iluminada, uma cidade efervescente... E todo o controle que tinha sobre sua vida estava esvaindo-se por entre suas mãos. Talvez nunca tenha realmente lhe pertencido. Sua cabeça girava e ela mal conseguia ver o que estava logo a sua frente, sentia raiva de si própria, raiva de seu egoísmo cego. Tudo estava tão claro, todos estavam tão alegres. Um guitarrista de rua tocava alegre alguma canção natalina famosa, pessoas paravam para observá-lo. “A música une as pessoas”, alguém lhe disse uma vez. Era estranho para ela perceber que aquele homem sem nada estava feliz. Tudo o que ele tinha em mãos era um instrumento gasto, um amplificador velho e a graça de ser artista. Porque, para ela, os artistas têm algo a mais em suas almas, algo que vai além da compreensão de qualquer outro ser humano. Não havia razões para se queixar, tudo a sua volta conspirava a seu favor, tudo lhe trazia um ar agradável. Porém ela não conseguia mais ver graça naquilo tudo. Breves momentos de sorriso, muitos momentos de frustração e alguns de lágrimas. Os de lágrimas eram os que mais lhe doíam. Sentia-se fraca e frágil, gostaria que alguém tomasse conta de tudo por ela, que alguém tomasse conta dela. Não. Jamais permitiria que aquilo transparecesse ninguém nunca poderia saber. Era egoísta sim, mas, ao menos, admitia. Havia momentos em que sorria, momentos em que parecia ter alcançado uma alegria extravagante, uma felicidade plena. Mas ainda assim havia momentos de escuridão. E ela não sabia como lidar com tais momentos e, por essa razão, deixava ser consumida por eles. Deixava com que eles tragassem todo seu espírito e depois cuspissem frangalhos ansiosos para serem recompostos. Talvez houvesse algo de masoquista dentro dela, talvez gostasse de sofrer. Ou talvez gostasse de ter a esperança de que alguém viria lhe socorrer e lhe puxar de volta à luz.
(Sttela Vasco)