"Quem sabe, um dia, eu não deixe de ser assim tão inconstante e instável? Até lá, sou uma nova atração a cada dia"
(Sttela Vasco)
domingo, 27 de novembro de 2011
O relógio marca 07h30min, uma luz branca ultrapassa as cortinas, os corpos ganham vozes e as ruas ganham vida. Seus olhos, meus olhos e todos os olhos abrem-se lentamente. Ela estica os braços ao longe. Toca o próprio rosto e confere se tudo o que sonhou não se transpôs para a realidade. É uma garotinha. Os cabelos longos, negros, caem-lhe na face, os pezinhos miúdos encontram os chinelinhos largados ao chão. Em sua mente novata não há muito que fazer. Ouve cantos ao longe, fecha os olhos e imagina estar em outro lugar. É miúda, silenciosa, inofensiva. Não passa de uma rapariga curiosa. Tudo ao seu redor volta a ganhar cores. O silêncio do sono e dos quartos inabitados abandonam o ambiente, mais uma vez ela ficará só. Uma senhora a vê e sorri chamando-a com os braços. Ela nada diz, caminha ao encontro da doce figura que lhe acena. É preciso ser bem educada, disse-lhe a mãe uma vez. Não há nada de novo, pela janela ela percebe as margaridas nascendo no canteiro, segura seu impulso de correr até elas e arrancar-lhes uma a uma apenas para cumprir seu capricho e formar um buquê. Lá fora, um par de olhos de vidro a acompanha. Sorriso franco, lábios vermelhos, cabelos perfeitos caindo em caracóis pelo corpinho de pano. Ela agarra as mãos frias de porcelana de sua velha companheira. Mais dia menos dia irá abandoná-la, irá crescer. Perceberá que o grande pedaço de terra é, na verdade, um tabuleiro abandonado onde brota o que quiser e que a simpática amiga que tanto lhe achega são apenas cacos pintados e enfeitados ao gosto de alguém. Mas isso não lhe aborrece ainda. Sua mente infantil preocupa-se apenas em não sujar muito o vestido ou não se esquecer de alimentar alguns cachorros fictícios. Tem um encontro com amigos imaginários e, enquanto os aguarda, pode sentir o cheiro de pão fresco invadir o ar, ainda não descobriu a singularidade do café. Respira fundo, pisca algumas vezes e joga os braços para o ar. Começa a rodar impaciente, roda e vai trançando pequenos círculos na poeira. Os sapatos pretos e envernizados logo perdem o brilho. Ela para, sente-se zonza e deixa-se cair ao chão. Para ela, a vida não vai muito além dali. Nada pode ser melhor do que estar ali. Alguém grita seu nome com força. Ela levanta, sacode cada pedaço da roupa engomada e dá pequenos tapas nas partes onde as manchas marrom permanecem. Os dias seguintes serão iguais, sua vida será igual até que ela abandone os sapatinhos. Até que ela simpatize-se com o líquido preto de cheiro forte que enche o bule todos os dias, mas que, por enquanto, ela não vê. Até que os espaços lhe pareçam menores e ela compreenda a ausência e entenda porque a suave senhora ainda está presente com seu avental amarelado, seus chinelos de pano e seu cabelo em coque. Até que ela perca a face pueril e ganhe elogios de poucos homens que por ali passarem. Ela ainda não compreende, nem imagina. Com algumas temporadas a mais talvez comece a notar, porém, por enquanto, tudo o que se faz importante está ali naquele pequeno quintal gigante. (Sttela)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário